quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mais uma Bolha Está Estourando?

Ontem a Bovespa despencou 4,75%, sendo esse o pior resultado da bolsa de São Paulo desde o dia 2 de março, quando a crise financeira global estava atingindo o Brasil de forma mais aguda. Os aplicadores do mercado de ações devem estar mais tranqüilos hoje, com alta parcial de 3,88% registrada próximo ao meio-dia.


Entretanto, esse ânimo não passa de boba ilusão. O que se sabe é que oscilações demasiadamente elevadas, fora de padrão, em qualquer circunstância (mesmo fora da economia) representam grandes potenciais de problemas, instabilidades.


Inicialmente os analistas de plantão apontaram a frustração das vendas de imóveis nos EUA como causa do problema. Mas cá entre nós, qual é a relação entre os americanos comprarem menos casas e uma empresa brasileira de transporte aéreo (TAM) perder em um só dia 8,5% de seu valor de mercado?


A resposta é: nenhuma; tudo não passa de mera especulação. O problema é que esse jogo pode gerar efeitos no mundo real da economia,


Há algumas semanas advertimos a respeito da bolha na Bolsa brasileira. Mesmo com a queda da Bovespa em função da crise financeira, não haveriam motivos para que as empresas brasileiras de capital aberto se valorizassem cerca de 70% no decorrer desse ano, ainda mais que os resultados presentes e futuros de tais companhias não se mostram nada espetaculares.


Além de uma movimentação de saída de mercados emergentes por parte dos investidores internacionais, o fenômeno também pode estar associado aos efeitos secundários da taxação de IOF para a entrada de capital especulativo de curto prazo; medida essa com a qual concordo, sendo inclusive alvo de insistente proposição por parte desse blog desde agosto.


O fato é que um IBOVESPA muito acima de 45 mil pontos, dentro do histórico do índice, significa inflamento excessivo e tende a sofrer recuos. E quanto maior a distância do centro gravitacional, evidentemente, maior o tombo.


Em resumo, aparentemente a saída de capital especulativo está desvalorizando o Real, o que dá mais competitividade aos produtos brasileiros no exterior e mercado interno. Por outro lado, os aplicadores em ações ficam com o mico na mão na medida em que se inibe os compradores internacionais (via IOF) que perdem o interesse em movimentos rápidos no mercado brasileiro.


Mesmo com as turbulências em questão, os efeitos de longo prazo da taxação da entrada de capitais externos de curto prazo tendem a ser favoráveis.




Curtas


1) O PIB dos EUA cresceu 3,5% no primeiro trimestre e isso coloca, tecnicamente, o país fora da recessão. Mas o “tecnicamente” não significa conexão direta com a realidade. A base de comparação para medir o Produto Interno norte-americano é muito deprimida por conta da crise financeira. Há um processo lento de recuperação, sim; mas a situação ainda é bem adversa.


2) Interessante a decisão do governo em manter o IPI reduzido para os produtos da linha branca com menor consumo energético. No final das contas, isso beneficia o meio ambiente. Tal medida também deveria ser estendida para os carros. Quem polui menos, paga menos. Isso, além de beneficiar nossos pulmões, inverteria a matriz tributária do setor. Os carros novos (com tecnologia mais limpa) seriam menos taxados do que os antigos. A renovação de frota tenderia a ser mais rápida. Está aí um bom lobby para a ANFAVEA.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Economia à La Asimov

Uma das grandes frustrações que tenho é não ter lido algum romance inteiro de Isaac Asimov – o papa da ficção científica. Até o final do ano pretendo não deixar essa lacuna em branco. Mas os contos e trechos que tive oportunidade de ler do citado autor foram realmente provocantes. Ele consegue fazer com que a mente fervilhe de imagens de um universo que o senso comum não admite.


Se alguém sair falando que Asimov fala de coisas reais, é provável que seja taxado de louco, lunático, ou outro predicado do mesmo sentido.

Mas vamos voltar um pouco no tempo, mais exatamente para 1870, quando Júlio Verne publicou Vinte Mil Léguas Submarinas. Naquela época, os leitores também tinham suas mentes provocadas por um mundo futurista, aparentemente, nada palpável.

O problema é que ao cabo de algumas décadas, o submarino virou realidade, assim como a metralhadora, a volta ao mundo em um balão, a viagem a lua e outras imaginações do escritor francês.

Voltando, então a Asimov, será que suas idéias de impérios galácticos, robôs com sonhos e sentimentos, dentre outras previsões, são tão absurdas assim?

Pelo que se sabe, a robótica – mesmo que ainda esteja atualmente engatinhando – vem registrando notáveis avanços em termos de locomoção de robôs e, em conjunto com a informática, está tendo sucesso em desenvolver crescentes níveis de raciocínio abstrato em máquinas.

Mas falar em viagens intergalácticas, naves fantásticas e seres de outros mundos seria um certo exagero. Será?

Bem, sempre surgem fatos novos na ciência. Há algumas horas a NASA divulgou a descoberta de um planeta em outro sistema solar da Via Láctea que contém água, metano e dióxido de carbono. Em outras palavras, esses são os requisitos químicos para a criação de moléculas mais complexas, o que é quase sinônimo de vida. E mais: esse tal de HD 209458b (nome um tanto quanto inóspito para um astro tão importante) é o segundo planeta encontrado com tais características.

De acordo com os cientistas, se eles (os dois planetas) não fossem gigantes gasosos, seria bem provável que alguns bichinhos e plantas estivessem passeando por lá. Mas o importante é que o padrão da receita básica da vida se repetiu, o que torna a situação um tanto quanto comum.

Agora só falta aprimorar a lente dos telescópios para conseguir perceber planetas rochosos (para ter uma idéia, em um planeta gasoso, tipo Júpiter, cabem mais de 2000 terras). Já se sabe que são milhares em nossa vizinhança astronômica – cerca de 200 anos-luz da terra – e é elevadíssima a probabilidade de que pelo menos algumas dezenas deles tenham a sopa básica da criação da vida.


Nem vamos entrar na questão a respeito de que tipo de bicho podem vir a morar em lugares tão distantes. Se eles não torcerem para a seleção argentina, já são aptos a serem respeitados.

Agora, sem brincadeira, não é apenas por curiosidade científica que os EUA, a União Européia, Rússia, China e outros países gastam centenas de bilhões de dólares por ano em pesquisas espaciais. Se estão investindo na descoberta de vida fora da nossa terrinha, é porque o conhecimento adquirido em tais prospecções seguramente tem algum significado econômico.

Um cara mais chato, nesse momento, pensaria que a maior velocidade possível de se atingir é a da luz. Então, para ir e voltar de HD 209458b demoraria 300 anos, sem os astronautas terem sequer o direito de parar para tomar um cafezinho em alguma padaria espacial.

Deixo aos físicos a atribuição de responder essa questão. Mas eles mesmos dizem que o universo é curvo e prevêem uma coisa parecida com buracos de minhoca, onde se poderia, em tese, atalhar distâncias espaciais.

Aos aventureiros, sugiro desenvolver uma espaçonave com motor total-flex (se dentro do Brasil encontramos tanto combustível estranho, imagina no universo...).

Mas para os que preferem ficar com os pés mais no chão indago: por que será que a pesquisa espacial de novos corpos celestes se intensificou tanto nos últimos anos? Qual o interesse prático nisso?

Bem, acho que a resposta não é muito difícil. Vejamos os principais produtos que tendem a ser irremediavelmente escassos no nosso planeta, de acordo com o atual estágio da civilização humana: 1) energia; 2) água; 3) conhecimento, especialmente em produção otimizada de alimentos, habitação, locomoção e comunicação.

A energia é a questão mais fundamental; é indissociável do conceito de desenvolvimento. Desde a década de 70 o mundo tem a plena certeza disso, com a primeira crise do petróleo.

O problema é que o recurso em questão - na forma como é predominantemente obtido na atualidade – além de ser caro (barateou em função da crise global) gera impactos ambientais já perceptíveis, podendo tornar o planeta inabitável em algumas décadas, segundo o que já foi declarado pelas principais lideranças mundiais.

As soluções renováveis, tipo biodiesel, parecem ser um paliativo transitório: ocupam muita área agrícola (que poderia ser destinada à alimentação ou reflorestamento), além de gerar sua própria poluição (são considerados combustíveis limpos por um conceito amplo de balanço ambiental – quando o insumo é planta, produz oxigênio, ganhando créditos para gerar gás carbônico no tanque dos carros).

A energia eólica é “tudo de bom”, mas aparentemente fraquinha para suprir as necessidades geometricamente crescentes da humanidade; as atuais indústrias nucleares (fissão) apresentam riscos radiativos; a fusão nuclear ainda é uma incógnita – só será testada em aproximadamente 6 ou 10 anos.

Enfim, nos momentos em que a economia mundial não está bombando, o consumo energético do planeta aumenta a uma razão média de 5% ao ano (mesmo com programas de eficiência energética). Isso significa que a cada 14 anos a produção tende a dobrar.

Hoje a capacidade instalada do mundo gira em torno de 16 mil megatoneladas de petróleo (equivalência que abrange todos os tipos de gerações) e deverá voltar a crescer a partir do ano que vem, com o provável abrandamento da crise global.

O esgotamento das reservas não renováveis (mesmo com descobertas de petróleo tipo pré-sal) e seu dano ambiental na escala atual estão obrigando os países mais dependentes de energia a extrapolar as fronteiras do planeta.

Experiências de captação da energia solar por espelhos orbitais estão em fase adiantada. Mas é lógico que isso – mesmo sendo um total sucesso - em algum tempo, não será mais suficiente.

Imagina daqui a 100 anos, por exemplo: o consumo, de acordo com os padrões atuais, deverá estar beirando 2 milhões de megatoneladas de equivalência petróleo, o que é energia para valer.

A solução: sair do planeta em busca de outras fontes. E se isso não for feito, provavelmente a terra estará com sérios problemas habitacionais em função da falta de sustentabilidade ambiental (a não ser que a população humana diminua drasticamente, o que é algo menos razoável do que pensar em expandir as fronteiras da vida).

Entramos, então, no problema da água. O aquecimento global (por causa da geração energética) está aumentando áreas desertificadas e, juntamente com o avanço da geração de efluentes, diminuindo a quantidade de água potável por habitante. As tecnologias de dessalinização do mar (que também já apresenta níveis importantes de contaminação) não se mostraram eficazes em grande escala.

Sem mais delongas, a água também tem grandes chances de virar produto de importação espacial (descobriram indícios de água em marte e há algumas semanas jogaram sonda contra uma cratera lunar para ver se há H2O no solo do satélite). Minérios também fazem parte do jogo.

É tudo uma questão de viabilidade econômica: redução de custos operacionais; escala de produção e logística.

A questão da água pode parecer meio banal no Brasil. Mas hoje mesmo o presidente vizinho, Hugo Chaves, pediu aos venezuelanos para que não tomem banho por mais de 3 minutos ao dia (oportunidade de exportar desodorantes?); na África, dezenas de milhões de pessoas tiram sua água de beber da lama, por meio de canudos com filtros improvisados.

Finalmente, entramos na questão do conhecimento. Vários dos avanços necessários para dar sustentabilidade humana ainda não são sequer sonhados fora dos livros de ficção à la Asimov. Mas em qualquer contexto, nosso padrão de vida inclui 4 condições necessárias, quais sejam: como nos alimentamos; moramos; locomovemos; e nos comunicamos. O resto são produtos e serviços secundários, também importantes, mas não essenciais para viabilizar a sobrevivência.

Os norte-americanos, dentro dessa lógica, estão fazendo interessantes experiências de simulação de sobrevivência de pequenas comunidades em redomas de vidro isoladas, para avaliar as necessidades em lugares como Marte. Evidentemente, o governo daquele país não está fazendo isso é simplesmente para jogar no lixo bilhões de dólares. É conhecimento com claros objetivos de aplicabilidade.

Em resumo, está ficando cada vez mais evidente que a economia desse nosso mundinho vai ter que extrapolar suas próprias fronteiras em um tempo que não pode mais ser chamado de longuíssimo prazo.

Há algum tempo alguns cientistas de ponta se reuniram para avaliar o sentido da vida. A conclusão deles foi interessante: se o universo está em expansão acelerada, é porque ele produz energia. E para equilibrar tal superávit, a função da vida, sob ótica universal, seria simplesmente gastar essa energia.

E isso é o que a humanidade está fazendo. Mas a forma de gasto atual é crescentemente ineficaz, devendo ser aprimorada. Daí a necessidade de transcende as fronteiras planetárias.

Se pensarmos nas nossas origens tribais, isso não passa de mais um salto de desbravamento de fronteiras, que sempre foi viabilizado pelo conjunto básico dos quatro elementos associa ao conhecimento que citei antes: alimentação; habitação; locomoção; e comunicação.

Olhando por essa ótica a coisa fica mais palpável; depende apenas de um aumento de visão de escala. Afinal, os países que tem esses elementos atualmente equacionados de forma razoável, são, hoje, classificados como desenvolvidos.

Não custa lembrar: o fato gerador desse tipo de sucesso é a aplicação de conhecimento adquirido, normalmente via processo educacional. E as conseqüências são melhores condições de acesso a bens serviços e relacionamentos que realmente dão o sabor especial a vida.

Sendo assim, a essência do futuro, mesmo transcendendo a esfera planetária, é a mesma do presente e do passado, havendo apenas variações de formas e escalas de produção e consumo.

Em resumo, o universo previsto por Asimov não é tão diferente do nosso e fica parecendo cada vez menos fantasioso. Tanto isso é verdade, que até o desenho dos Jetsons ( desenho animado de família do futuro, criado pelos estúdios de Hanna Barbera) virou, em certos aspectos, algo retrô: o videofone já é acessível; e andar em esteiras rolantes se tornou tecnologia banal... os Flinstones (família da idade da pedra), por outro lado, ficaram bem mais divertidos.

Curtas

1) Dado preocupante do IBGE: o emprego formal está em queda, enquanto o salário médio vem subindo. Diagnóstico de primeira mão: são os trabalhadores mais pobres que estão perdendo o emprego.


2) Hoje de manhã deu blackout aqui em Brasília. Por meia hora, a Esplanada dos Ministérios (e partes, sem gerador, do Congresso) ficou às escuras. Dizem as más línguas que quando a luz voltou, ninguém percebeu...

3) O PIB chinês do terceiro trimestre cresceu 8,9% diante do mesmo período do ano passado. Já nos EUA os pedidos de seguro-desemprego aumentaram em 11 mil na semana passada, chegando a 531 mil. As coisas ainda estão incertas no mundo. De uma forma geral, a crise permanece.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O Brasil Multinacional

Em primeiro lugar é importante deixar uma coisa esclarecida: em economia, quem afirma taxativamente alguma coisa tem grande chance de estar mentindo. Afinal, a certeza envolve o conhecimento pleno de todas as leis da natureza da terra, do universo e, em certos casos, até da metafísica. Obviamente não há ser vivo com tal capacidade... Apenas alguns presunçosos que acham (ou dizem) que a tem.


O que podemos fazer é buscar algumas aproximações que nos deixem o mais perto possível da realidade observada. Visualizando padrões de comportamento é plausível identificar alguns padrões operacionais da economia e de setores específicos, projetando seus resultados futuros. Mas isso só vale até recebermos algum golpe proveniente de uma nova realidade que coloca esses padrões conhecidos no lixo.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu com a detonação da última crise mundial, iniciada em setembro do ano passado. Simplesmente não dava para combater a bagunça financeira utilizando o conhecimento acumulado. Ações de micro-cirurgia eram ineficazes perante à forte hemorragia de apodrecimento de dinheiro que estava em curso. O jeito foi combater fogo com fogo (em alguns lugares conhecido como “à moda Miguelão”) e tampar os vazamentos com a injeção de mais e mais dinheiro, deixando para depois a solução dos estragos colaterais.

E se o mundo é um local de incertezas, o Brasil não poderia ser diferente, apesar de todos os discursos a que estamos acostumados a ouvir.

Uma das missões desse blog é exatamente buscar localizar tais incertezas, o que tem feito algumas pessoas influentes torcerem o nariz. Mas, sinceramente, sou alérgico ao “tudo certinho” e nunca vou resistir a buscar algum indício de “cabelo em ovo”.

Semana passada fiz pequeno deboche do Presidente da República, tratando da sua insistência pública em não reagir ao ataque especulativo ao Real. Minha proposta inicial, como medida de emergência, era taxar a entrada de capital externo de curto prazo, como forma de estancar a entrada de dinheiro de fora, que tornava a valorização de nossa moeda insustentável para os exportadores – especialmente da indústria.

Mas conhecendo a política brasileira, onde a negação é um forte indício da afirmação de fato, hoje foi dada a largada na tributação de 2% sobre as aplicações estrangeiras. O resultado imediato: até às 13:40h o dólar já acumulava alta de 2,34%.

Se tal medida será suficiente para reativar a competitividade exportadora do país, isso ainda é uma incógnita.
Afinal, não dá para esquecer a encrenca das contas nacionais (o governo tem dificuldades de girar sua dívida, o que torna o capital especulativo algo atraente para estancar a hemorragia das contas públicas, evitando a redução de gastos não prioritários para o público, mas essenciais para a política de poder).

Caso tudo funcione direitinho, como num mundo dos sonhos, em algumas semanas as exportações industriais podem começar a reagir, melhorando também o potencial do mercado nacional (competitividade para substituir importações), gerando empregos, melhorando também a renda interna, etc...

Mas tal medida der errado? Relembrando, não podemos nos esquecer de que certezas não passam de grosseiras burrices!

Bem, daí a encrenca não será das mais bonitas.

E o que fazer? Recomendar aos empresários exportadores que fiquem de braços cruzados, fazendo beicinho de choramingo? Isso não adianta!

O melhor é buscar soluções pragmáticas na direção de manter a essência da empresa viva. Para isso, é interessante olhar um pouco para a história dos países que tiveram mudanças de padrões cambiais, no sentido da valorização de suas moedas.

Nações como Japão, Coréia do Sul e outros asiáticos romperam com a pobreza interna através da priorização das exportações, a exemplo do que China e Índia fazem atualmente. Para isso, além de desenvolver produções seriadas de elevadíssima escala, a venda dos produtos era facilitada por um câmbio planejadamente desvalorizado.

O Brasil, dentro de seu contexto industrial e agrícola está em um estágio de desenvolvimento perfeitamente compatível com o quadro acima descrito. Entretanto, desde o Plano Real a indústria, especialmente, foi prejudicada pela situação cambial oposta, ou seja: extrema valorização que mina as exportações e distorce o mercado interno, com o preço dos importados artificialmente deprimidos.

Como falei, de nada adianta as empresas lamentarem tal situação. O negócio é agir. A história, ainda bem, oferece alternativas de soluções que não ferem os princípios dos acordos internacionais.

Voltando ao exemplo japonês, vejamos o que aconteceu na história econômica do país. Os rádios portáteis de pilha e outros badulaques que inundaram o mundo nas décadas de 50, 60 e 70 acabaram absorvendo crescentes contingentes de trabalhadores por lá. Naturalmente, o preço da mão-de-obra começou a aumentar, obrigando as indústrias nipônicas a desenvolver produtos de maior preço médio, ao mesmo tempo em que o Yene se valorizava por dois motivos: superávit comercial e interesse público na importação de insumos e produtos estratégicos (no caso, alimentos) a custo interno reduzido. Isso acabou fazendo com que os antigos radinhos fossem crescentemente aperfeiçoados, especializando o país em miniaturização eletrônica, robótica e outras atividades de ponta tecnológica na atualidade.

Por outro lado, os produtos mais intensivos em trabalho humano não iriam ser simplesmente abandonados. As fábricas acabaram “mudando de endereço”; foram produzir em países mais próximos aos núcleos de consumo, preferencialmente onde o custo do trabalho qualificado fosse menos elevado e o acesso às matérias primas facilitado. Por conta disso, empresas como Toyota, Honda, Toshiba têm, hoje, indústrias estabelecidas no Brasil e em vários outros países.

E nessa dinâmica de receptivo de investimento externo, quem levou as maiores vantagens foi a China: cambio deprimido e mão-de-obra de baixíssimo custo atraiu a maior migração de capital produtivo da história do mundo, alavancando os chineses para o pódio das maiores economias globais (junto com Japão, Alemanha e EUA).

E o que tais empresas investidoras (as multinacionais) ganham com isso? Simples: elas geram royalties e lucros para a matriz. Em resumo, passam a aproveitar os ganhos de capital e financeiros, ao invés de produtivos puros, deixando suas populações disponíveis para trabalhos de maior preço.

O Brasil, caso o câmbio não recue, queimou etapas, chegando em posicionamento no qual suas indústrias mais intensivas em mão-de-obra e matéria-prima têm a obrigação de começar a pensar seriamente em exportar fábricas. As maiores já fizeram isso. Gerdau, Marco Pólo, Tramontina, Odebrechet e várias outras partiram para tal solução globalizante há anos.

Está na hora de empreendimentos de menor porte também pensarem em trilhar o mesmo caminho. Calçados, móveis, proteína animal e outros produtos típicos de nossa pauta exportadora, com problemas de custo de origem cambial devem pensar em estratégias de “internacionalizar fábricas” para centros logisticamente mais adequados e trocar a exportação tradicional, pelo recebimento de rendas externas.

O mercado de trabalho do nosso país lamentará tal situação, uma vez que a ociosidade de mão-de-obra ainda é grande no Brasil. Mas não pensar em tais alternativas significa ficar a mercê da desastrosa política cambial dos últimos anos... e morrer!

Em resumo: quem internacionalizar fábricas deixa de gerar emprego no mercado interno; mas quem não fizer isso – no contexto atual – corre o sério risco de acabar morrendo e além de não gerar empregos no mercado interno, deixa de produzir qualquer tipo de renda. O que é pior?

O que acabei de dizer é uma certeza? Claro que não.. mas não é algo despropositado.



Curtas

1) Resultado de pesquisa do SERASA: o brasileiro está mais endividado e inadimplente. A pior situação está nos segmentos com renda mensal até R$ 500. Provavelmente o 13º salário aliviará a situação nos próximos meses. Mas o furo é mais embaixo. O endividamento aumentou de forma leviana; sem sustentação, como demonstrei em postagem da semana passada.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A Desaceleração das Vendas no Comércio

Existem coisas na economia que não são tão óbvias para se entender. Há algum tempo estamos alertando a respeito da queda da produção industrial e redução das exportações brasileiras.


O natural seria que a partir desses indicadores, uma rede coerente de causas e efeitos determinasse problemas ao nível do consumo. Afinal, com as fábricas reduzindo sua atividade e as vendas internacionais em franco declínio, nada mais lógico do que do verificar queda no nível de emprego, da massa salarial e, conseqüentemente, problemas ao nível do varejo.

Porém, os resultados do comércio mostram, predominantemente, uma realidade bem diferente. As vendas acumulam crescimento de 3,7% nos últimos doze meses tendo como base agosto passado, enquanto a expansão frente ao mesmo mês do ano anterior chegou a 5,5%.

No âmbito dos gêneros do comércio a situação oficial (dados do IBGE) só se mostra problemática ao nível de material de construção, vestuário/calçados e combustíveis, com esse último ainda em situação de crescimento em termos anualizados (barra laranja da ilustração abaixo).

Pelos destaques positivos, as lojas que vendem componentes de informática continuam mantendo forte alavancagem, mostrando que o ramo ainda tem muito caminho pela frente antes de chegar a um ponto de eventual estagnação. Esse diagnóstico não é invalidado pelo crescimento quase nulo de agosto de 2009 frente ao mesmo período de 2008. Provavelmente trata-se de questões circunstanciais.

Os gêneros de artigos farmacêuticos e livros/jornais também contabilizaram importantes ganhos no decorrer dos últimos meses.


As razões de tal comportamento podem ser centralizadas em três aspectos: a) incentivo de IPI para automóveis e linha branca (os hipermercados e os grades sites de comércio eletrônico centralizaram o aproveitamento desse beneficio fiscal) , apesar disso não ter materializado reação no âmbito do material de construção; b) sustentação de renda nos municípios do interior do Brasil (especialmente sul e centro-oeste) por conta da safra razoável, a preços menos deprimidos do que se imaginava inicialmente. Nesse caso, pesou a favor o contexto cambial mais adequado que predominou até maio último melhorando a receita exportadora das commodities; e c) a recente onda de liberalização e popularização do crédito ao consumo, o que tem sido, ainda, o principal fator de alavancagem do varejo.


Mas como advertimos na postagem do dia 15 de setembro, tal situação envolve riscos, a exemplo do que aconteceu recentemente com a crise global - conseqüência imediata da leviandade do sistema de hipotecas dos EUA, chamada de sub-prime. No caso brasileiro, o perigo é o de estourar algum tipo sério de inadimplência no âmbito do financiamento de automóveis e linha branca, o que poderia provocar uma espécie de efeito-cascata.

Atualizamos a próxima ilustração para agosto último e fica claro que mesmo que a massa salarial do país esteja mantendo um ritmo de crescimento da ordem dos 5% ao ano, as vendas do varejo mostram sinais de rápida desaceleração, caindo do patamar superior a 10% até o final do ano passado para percentuais próximos de 5% ou até menos (conforme o padrão de medida).

Tal arrefecimento das vendas também vem afetando o crédito. Porém o crescimento é ainda demasiadamente elevado para ter sustentação. Em agosto, os financiamentos a consumidores e lojistas crescia ao ritmo de 21% ao ano, o que mesmo sendo um patamar inferior ao apurado nos meses anteriores continua sendo um grande descompasso em comparação ao crescimento da renda, expresso na massa salarial.

Tal desproporção aparece mais claramente na última ilustração dessa análise. Simplesmente, nos últimos quatro anos, o avanço real (descontada a inflação) das remunerações de trabalhadores, autônomos e profissionais liberais foi de 24,5% o que, diga-se de passagem, é um ganho nada desprezível.


Mas ao mesmo tempo, o crédito associado ao comércio disparou 159% passando de 9,7% para 19,2% do PIB nacional. Num comparativo mais palpável ao leitor, não está errado dizer que a cada real de renda adicional conquistado pelo trabalhador, o seu comprometimento com empréstimos, em média, aumentou R$ 6,47 nos últimos 4 anos.

Tal comparativo é de arrepiar a espinha de qualquer gerente de banco. Vamos esperar para ver no que isso vai dar. Não será surpresa se começarem a falar em aumento de inadimplência nos próximos meses.





Curtas



1) Um dos assuntos mais comentados da semana: a eventual morte do dólar. Não é fora de propósito que a moeda norte-americana se desvalorize para equilibrar a balança comercial do país. Isso é um ajuste legítimo. Mas falar em morte das verdinhas só seria plausível após uma guerra global. Entenda-se de uma vez por todas: a moeda é, sim, um instrumento de poder! E quem perde poder, primeiro tem que ser derrotado. Esse não é o caso dos EUA... Pelo menos ainda.


2) O Presidente da República reiterou que não pretende taxar o capital externo que entra no Brasil (especulativo ou não). Tudo bem, existem outras maneiras de fazer com que o Real deixe de ficar tão valorizado. Será que depois de três dias acampado nas obras do São Francisco o Sr. Luiz Inácio da Silva poderia pensar em contingenciar a entrada de tais capitais; ou então definir prazos mínimos de internalização (maiores, é claro)? Não, acho que não ...


3) O Bank of America, maior banco dos EUA, amargou prejuízo de US$ 1 bilhão no terceiro trimestre. E quando as instituições financeiras perdem dinheiro, a situação é preocupante. Melhor ficar no sinal de alerta... talvez a crise financeira global tenha mesmo outro capítulo. A propósito, os EUA fecharam o ano fiscal com um déficit de US$ 1,4 trilhões, ou 10% do PIB do país. Sorte deles é que os títulos públicos de lá, com prazo de resgate superior a 30 anos, são ainda muito cobiçados mundo afora. E o lado positivo: a produção industrial subiu 0,7% na terra da Madonna. Os sinais econômicos, a exemplo dessa maravilhosa artista, são instáveis e cheios de caprichos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O Governo na Pindaíba

Já fui chamado de quase tudo: reacionário, líder da turma do quanto pior melhor, Do Contra, além de outros predicados ainda menos lisonjeiros. Os motivos: apenas falar o que penso; não acreditar em consenso; e ousar fazer algumas contas de simples aritmética.


Nessa semana o senado esteve preocupado com o atraso das restituições do imposto de renda das pessoas físicas. Não é para menos. De acordo com as últimas projeções, cerca de US$ 3 bilhões que deveriam ser devolvidos aos contribuintes vão ser jogados para o ano que vem, deixando cerca de 2 milhões de trabalhadores (ou eleitores) pê da vida.

Afinal, a restituição é um direito; e não recebê-la significa, em última instância, um confisco de propriedade. Será que o contrário seria permitido? Tipo, o sujeito meio durango “bicicletear” o pagamento de seus impostos para o ano que vem? Claro que não! O pessoal da receita iria dar a maior dura em cima...

Mas, agora voltando para o lado do governo, o próprio ministro da fazenda Guido Mantega admitiu que tais atrasos estão ocorrendo por falta de caixa nos cofres públicos.

Opa! Essa é uma questão da maior seriedade. De acordo com as fontes oficiais, a queda da arrecadação dos últimos meses (crise econômica + redução de impostos sobre carros, eletrodomésticos, material de construção, etc.) foram as causas do desequilíbrio que levou ao calote em questão (é calote sim!).

E tal situação apenas comprova o que venho alertando há anos: no período de vacas gordas (até o ano passado) o governo conseguiu aumentar sua arrecadação pelo bom momento da economia nacional (em função do contexto global) e elevação da carga fiscal.

Mas ao invés de usar pelo menos parte desse dinheiro para criar um fundo para os tempos difíceis, o executivo federal pisou fundo no acelerador e gastou ainda mais do que arrecadou.

Vejamos os dados:

Em termos reais (descontando a inflação – IPCA), de acordo com o site da Receita, a arrecadação federal de janeiro a agosto chegou a 436,8 bilhões nesse ano, diante de 471,7 bilhões somados no mesmo período do ano passado. A diferença a menor, então, chegou a praticamente R$ 35 bilhões.

E foi nesse contexto que os contribuintes deixaram de receber seus 3 bilhõezinhos.

A questão é: será que existiria outra forma menos traumática de administrar a questão (sem aumentar impostos, é claro)? A resposta é um forte sim.

Tomando por base a organização da despesa pública feita pelo site Contas Abertas, poderíamos propor a seguinte economia de custeio ao governo federal entre janeiro e setembro:

• corte de 20% nas:
- diárias de viagem: R$ 113 milhões
- contratações por tempo determinado: R$ 123 milhões
- despesas variáveis de pessoal: R$ 239 milhões
- material de consumo: R$ 754 milhões
- material de distribuição gratuita: R$ 29 milhões
- passagens e despesas com locomoção: R$ 99 milhões
- serviços de consultoria: R$20 milhões
- outros serviços de terceiros: R$ 173 milhões
- locação de mão-de-obra: R$ 2.426 milhões
- outros auxílios financeiros: R$ 1.879 milhões
- material e equipamentos: R$ 186milhões
- aquisição de imóveis: R$ 173 milhões
• corte de 10% nos:
- benefícios assistenciais: R$ 27 milhões
- benefícios sociais: R$ 2 bilhões
- auxílios: R$ 199 milhões
-subvenções sociais: R$ 14 milhões
TOTAL: 8,7 bilhões

Ora, fazendo esse corte bem superficial (não entramos em despesas de publicidade e algumas mordomias desnecessárias ao nível da administração pública), temos quase 3 vezes o valor necessário para pagar aos trabalhadores a restituição de Imposto de Renda atrasada.

A conclusão é óbvia: a receita federal provou ser um órgão arrecadador de elevadíssima competência. Por outro lado, o Estado mostra ser um gastador de péssima qualidade: desperdiça em frentes não fundamentais; não executa orçamentos prioritários (investimentos, por exemplo); acabando por ficar na pindaíba por não saber gerar seus ricos recursos.

Extrapolando um pouco essa contabilidade, o governo tem buscado equilibrar seus rombos via atração de recursos especulativos internacionais. Isso, como comentei na última postagem, acaba gerando conseqüências gravíssimas em termos de valorização do Real, o que, por sua vez, detona com as exportações de produtos industriais e incentiva as importações. Ou seja, o contexto manda o setor produtivo para o beleléu.

Qual a solução para o problema? Aparentemente é simples. Gastar menos para ter menor necessidade de financiamento (e de arrecadação!).

Mas reconheço que isso é utopia em nosso conceito institucional. Conhecendo a história brasileira, medidas verdadeiras de contenção de gastos públicos talvez só ocorram quando pararmos de levar a sério coisas como o Tribunal de Contas e a sociedade civil (entidades privadas representativas da sociedade, como CNI, CNA, CUT e outras – nada de parlamentares!) assumir o controle de uma real auditoria permanente dos gastos públicos, arcando com os custos desse processo.

É o que chamo de auditoria da sociedade civil. Pode ser que dê certo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

As Exportações da Indústria Brasileira Continuam Derretendo

Em setembro o dólar abriu em R$ 1,8829 e fechou a R$ 1,7781. Hoje a moeda brasileira está sendo cotada a R$ 1,739. Então, no mês passado a moeda brasileira se valorizou 5,9% e mais 2,2% na primeira metade de outubro.


Considerando que o ponto mínimo de viabilidade exportadora para a indústria brasileira mais intensiva em mão-de-obra é de R$ 2,25 por dólar, não surpreende que as vendas internacionais do país continuem despencando ladeira abaixo, quando comparadas com o mesmo período do ano anterior.

E foi isso o que aconteceu em setembro. O fechamento exportador em US$ 13,86 bilhões representou uma queda de 30,7% diante do mesmo período do ano passado. E foi a indústria o setor que mais deixou de vender, com retração de 38,7%, seguida pelos minérios (-37,2%) e agronegócios (-15%).

Quem culpa apenas a crise global pela situação aqui colocada está padecendo de falta de visão, ou de falta de vergonha na cara.

Aos poucos, o mundo vai se recuperando do baque do colapso financeiro iniciado em 2008, com os países de maior intensidade exportadora gradativamente recuperando terreno. As perdas norte-americanas, nessa mesma medida, estão em 18% (base agosto); as chinesas em 23%; e Japão 28%.

Em resumo, o Brasil é o país de relevância econômica que mais tem sido penalizado com a queda das vendas internacionais. E isso se deve aos problemas cambiais do país, enfatizando que o agronegócio não consegue mais segurar a peteca.

A ilustração abaixo mostra essa lamentável situação em termos anualizados. A perda das vendas industriais já chega a 25% na comparação com os doze meses compreendidos entre outubro de 2007 e setembro de 2008. Em tons mais práticos, poderíamos dizer que o Brasil deixou de exportar 1 em 4 dólares que vendia há exatamente um ano.



O problema é grave. A participação da indústria na pauta exportadora brasileira chegou a 31%. Dá, então, para dizer que voltamos a ser um país de base econômica agrária e extrativista. Isso é mal.


E junto com o encarecimento do produto brasileiro no exterior pelo artificialismo da valorização cambial (dinheiro especulativo de fora entra no Brasil, detonando com o setor produtivo, mas salvando as contas públicas), o preço médio das mercadorias nacionais vem caindo. Afinal, os produtos fabris de maior valor agregado perdem competitividade (ficam muito caros no exterior), fazendo com que os industriais que insistem em exportar deprimam preços ou partam para a venda de badulaques de baixa qualidade. Em todo o caso, a margem das empresas vai para baixo da sola do chinelo.





Sinais dos tempos: no mês passado, os três principais itens da pauta internacional brasileira foram: minérios; combustíveis; e açúcar (esse último beneficiado com a quebra da safra indiano, o que encareceu o álcool no mercado interno) que, conjuntamente, foram responsáveis por 24% do total exportado pelo país. Em 2005, antes, portanto, de o Brasil começar a ter problemas agudos de desequilíbrio cambial, os destaques eram: veículos, produtos mecânicos e combustíveis (excedentes de gasolina).


Olhando tais dados, fica claro que o nosso país perdeu qualificação de produtos. E se deixamos de exportar produtos industriais, isso significa, também, que o mercado interno está mais propenso a importar tais produtos, duplicando a fonte de perdas da indústria brasileira.

E quem fala de recuperação de emprego das fábricas está enrolando o público.

Logicamente, para fazer frente às encomendas das festas de final de ano, o número de vagas aumenta entre setembro e novembro, na comparação com os meses anteriores. Mas no comparativo realmente honesto: mesmo período do ano passado, os resultados são desastrosos. De acordo com o Ministério do Trabalho (CAGED), em agosto do ano passado o país contava com 603,4 mil industriários (emprego formal). No mês retrasado (agosto/09) esse número havia caído para 548,8 mil.

Ou seja, quase 55 mil pessoas ficaram desempregadas na indústria. Grande parte desse contingente ainda teria seu trabalho caso as autoridades federais optassem por algum tipo de controle da entrada de capitais especulativos no país. É urgente controlar tal descontrole cambial.

O governo pode ganhar algum giro de sua dívida com a especulação atual; mas a estrutura produtiva nacional paga muito mais caro por isso.

Melhor controlar a qualidade da despesa (diminuir gastos de forma criteriosa) do que simplesmente asfixiar empresas e trabalhadores realmente produtivos.


Curtas

1) De acordo com o Boletim Focus (Banco Central), os analistas do setor financeiro apostam que o PIB brasileiro de 2009 vai crescer 0,1%. Se isso acontecer realmente, será um resultado excelente diante do contexto de crise global. Minha projeção: queda de pelo menos 1,5%.


2) Dado da ONU: a produção mundial de alimentos precisa subir 70% até 2050, para suprir a demanda crescente dos 9 bilhões de habitantes que o planeta terá naquele ano, segundo a projeção dos demógrafos. Para tanto, os países em desenvolvimento precisariam investir, anualmente, cerca de US$ 44 bilhões na agricultura, ao invés dos US$ 7,9 bilhões atuais. Afinal, serão 2,5 bilhões a mais de bocas para alimentar. Tal cenário é interessante para um país como o Brasil. Mas há controvérsias: em primeiro lugar, será que a população crescerá tanto assim? Se a resposta for sim, os problemas ambientais que nos acostumamos a discutir são pura balela. Em segundo lugar, é muito provável que em quase meio século de história os cientistas vão desenvolver novas formas de cultivo mais econômicas e produtivas. A salvação do mundo (e dos estômagos) está na super-produtividade agrícola. Aguarde novidades sobre o tema.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O País de Falsa Verdade

Não sejamos cínicos! Negar que contar umas mentirinhas faça parte da vida seria a maior mentira de todas. O mentiroso amador é aquele que bate no peito e diz que só fala a verdade. Uma categoria mais profissional é a daqueles que sabem contextualizar a falsidade com um singelo “não sei mentir”.



O problema é que no âmbito das políticas públicas, por mais que se esconda sujeira embaixo do tapete, as verdades acabam se revelando de forma, normalmente escandalosa. Um caso típico é a gripe suína. As ações preventivas do ministério da saúde se limitaram a propagandas que, inicialmente tranqüilizaram a população, ressaltando a inexistência de riscos.

Depois das primeiras centenas de mortes confirmadas pela doença, começou a moda do álcool gel, das máscaras e outras miçangas de pouca eficácia. O retro-viral para curar a doença só poderia ser receitado por médicos da rede pública, após os trâmites burocráticos de confirmação do diagnóstico do paciente, quando, muitas vezes, já era tarde demais para salvar a vida do adoentado.

No final das contas, o resultado: de acordo com dados do final de setembro, o número de mortos no Brasil em função da gripe suína já havia ultrapassado a casa dos 900, colocando nosso país na liderança do ranking mundial de óbitos por causa dessa doença.

A solução para o problema foi simples: o assunto simplesmente foi banido na grande mídia, aparentemente deixando de existir. Na rua se fala, então, que a situação está melhorando. Entretanto, catando informações pela Internet se descobre casos de mortes nessa semana nos estados da região sul, Rio de Janeiro e outras várias localidades do país.

O mais intrigante é que essa maneira de o poder público lidar com seus problemas não é algo circunstancial. Isso já faz parte do dia-a-dia da vida brasileira, vindo à tona de vez em quando.

E aproveitando a ocasião, vale a pena dar uma olhada nos dados divulgados pela pesquisa do IDH (índice de desenvolvimento humano), de autoria do PNUD.

Os jornais destacaram que o Brasil permaneceu na 75ª posição em 2007, dentro de um ranking que envolve 182 países. Ou seja, nossa posição é claramente intermediária entre a miséria absoluta e a riqueza. Países que nos fazem sentir dó, como Peru e Equador, estão em situação similar a brasileira.

Os argentinos, mesmo com todos os problemas internos, apresentam um desenvolvimento humano 6,5% superior ao nosso. E não adianta a seleção do Dunga dar uma surra no time do Maradona. O desenvolvimento humano no país vizinho é melhor e fim de papo.

Mas vamos pensar a questão sob outro ângulo. Nenhum país é culpado por ser miserável. Por outro lado, é inegável a culpa das nações resistentes a evolução.

E nesse âmbito, olha só que dado interessante: no decorrer desta década, o IDH do Brasil evoluiu 2,9%, enquanto a melhoria da média mundial ficou em 5,7%. Somos um país de terceiro mundo que evolui ao ritmo de nações com quase todos os problemas sócio-econômicos resolvidos, como Itália, Espanha e outros de alta renda.

Os dados determinantes para o avanço tão medíocre: a renda per capita do brasileiro cresceu 14% no decorrer da presente década, enquanto a mundial (média linear) avançou 26,5%, ou seja, quase o dobro; o índice global de expectativa de vida aumentou 4,7%, enquanto nosso país ficou abaixo da média, com 4,4% (junto com o Senegal).

Mas o pior ficou para o índice educacional: o Brasil registrou evolução de apenas 1,65% frente a 8% da média mundial. E nesse campo, mais uma bomba que reflete a falta de seriedade dos serviços públicos: o Brasil é o 100º país do ranking de alfabetização.

Ou seja, o nosso grandioso país, afora alguns anos de boas exportações do agronegócio, mostra pouca capacidade de enriquecer, sequer dentro dos padrões mundiais. Além disso, fica evidente que arrecadar tanto e gastar apenas 22% do orçamento em saúde e educação (dados de 2007) é simplesmente fazer nossa sociedade se perpetuar no passado.

Seria compreensível que uma nação com território desértico, ou em conflitos freqüentes tivesse dificuldade para gerenciar um ritmo razoável de desenvolvimento. Mas certamente esse não é o caso de Brasil.

Ou melhor, é sim. Mas o clima desértico e os conflitos estão na cabeça da maioria de nossos administradores públicos.

Sob a areia daqueles cérebros estão engavetadas providências fundamentais para a base de crescimento do país. E a mesma massa encefálica prioriza estratégias de destruir a obra dos oponentes, ou esconder o que não foi feito.

E assim vamos levando a vida. Os jornais destacaram que o desenvolvimento humano brasileiro melhorou. Fazer o que? Vivemos em um país onde a verdade é apenas uma conveniência.